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AO PAULO EDUARDO CARVALHO QUE NOS DEIXOU TÃO SÓS A 20 DE MAIO DE 2010
[10-06-2010] por Maria Helena Serôdio
Um deus – um deus solar – de coração gentil, de invulgar saber e lucidez, de uma incomparável força anímica, de uma rara generosidade e com as emoções à flor da pele, esteve entre nós durante alguns – mas muito poucos – anos.
Quem ele, de facto, era, o que fazia por todos nós, sabíamo-lo bem. Quando o nomeávamos, entre nós, sabíamos que o seu nome era uma “senha” que criava um laço quase secreto que nos ligava, por mais diversos que fôssemos. Era um privilégio a que acedíamos, que nos foi dado partilhar, e que agora se rompeu de forma violenta e tão injusta!
A sua ausência vem amputar em nós essa parte de nós mesmos: a que construíamos com ele e por ele. Porque nos inspirava para o melhor, porque nos ajudava a ultrapassarmo-nos, sempre na demanda de uma perfeição que – muito provavelmente – só ele conhecia nos seus contornos exactos.
É difícil acreditar que, em momentos de dúvida, tristeza e aflição – pelas mais diversas desrazões da vida – não lhe possamos voltar a telefonar para ouvir a sua voz que ele modulava tão bem entre a compreensão solidária e o entusiasmo vibrante com que se dispunha a refazer connosco o mundo.
Tudo o que era belo e bom o fascinava, nenhuma arte lhe era desconhecida ou indiferente: com elas convivia e nelas sabia ler a perfeição das coisas e a solidez dos afectos.
Foi arquitecto luminoso de muito do que de melhor fizemos nos últimos anos: nas Faculdades de Letras das Universidades de Lisboa e do Porto, na Associação Portuguesa (e Internacional) de Críticos de Teatro, no Centro de Estudos de Teatro da FLUL, no Centro de Literatura Comparada Margarida Losa, em muitas outras associações nacionais e estrangeiras, e, enfim, e sobretudo, na revista Sinais de cena: a criação linda que em grande parte lhe cabe e onde a sua memória – e o seu coração – perdurarão enquanto ela puder existir.
Oxalá esse seu transbordamento radioso – que o colocava acima dos melhores – possa continuar a habitar as nossas almas por muitos anos, e que a sua voz amorosa – que dificilmente se calará em nós – nos inspire a superarmos a nossa pequenez e, se possível, nos conduza ao que ele se esforçou tanto por construir: um mundo em que o saber, a competência, a beleza, o amor íntimo e poderoso fossem as leis do eterno movimento.
Ao nosso Paulo, ao meu (por pouco tempo) discípulo e (por muito mais tempo) professor cintilante, ao meu companheiro electivo de tantos momentos bons e maus, permitam-me que lhe dirija a palavra pela voz do poeta Manuel Gusmão para nele identificar o símbolo absoluto da minha rosa: escura floresta e selvagem, a rosa chega às margens da luz. desencontrados ventos a fazem girar sobre o seu centro em movimento. A metade do caminho da nossa vida, dirá: toda a esperança te é exigida, coração que deflagra. Dois sóis, a rosa: A arquitectura do mundo (Lisboa, Caminho, 1990, p. 76)
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